press release
imagens
DA JANELA DO MEU QUARTO

Mendes Wood
Rua da Consolação, 3368
Jardins, São Paulo, Brasil

 

11 de Novembro – 18 Dezembro, 2010
Abertura: Quinta-feira, 11 de Novembro,19hrs

 

A Mendes Wood tem o prazer de apresentar, entre os dias 11 de novembro e 18 de dezembro de 2010, a primeira mostra individual da artista paulistana Mariana Tassinari

 

por Sérgio Sister

 

A natureza inteligente da beleza

 

Em “Horizonte vermelho”, um trabalho de 2003, estreito na altura e compridíssimo na largura de quatro metros, tudo parece ser, em essência, apenas uma fotografia de paisagem, com céu, mar, sol e falésias.  Mas Mariana Tassinari, com delicadeza, trata de subtrair o conforto abandonado e irrefletido da beleza pura da natureza, para devolver aos olhos do espectador uma beleza complexa, com valor adicionado.

 

No lugar de um único e imutável registro da vista (e da vida), ela compõe esse espaço com diferentes recortes fotográficos do mesmo lugar, introduzindo seqüências de vários céus no lugar de um céu, de distintas gradações de luz, e de proporções diversas entre norte e sul da linha do horizonte. Além disso, ao invés de emendar as imagens umas às outras, ela as separa, em intervalos irregulares, com a aplicação de adesivos plásticos vermelhos, no formato de retângulos, em vários tamanhos, contrapondo-os à natureza.

 

O que está ali é, mais ou menos, a prática contínua de Mariana nestes primeiros sete anos de sua produção.

 

Ela corre o mundo catando imagens de montanhas, mares, casas, edifícios, janelas, telhados, árvores, praias, pessoas – e de tudo o que encanta e intriga em lugares e coisas do espaço humano. Opera em seguida, não uma simples reprodução ou uma dilaceração daquilo que viu, mas a multiplicação de pontos de vista, selecionando ângulos diferentes e variações de cores e luzes, que serão impressos para a montagem da obra. Finalmente acrescenta um elemento não-fotográfico, de outra fisicalidade, menos da memória e mais da presença imediata, material, que pode ser um adesivo opaco, um acrílico espelhante ou um ladrilho. É neste elemento aposto, superposto ou justaposto que, parece, está a chave da poética de Mariana Tassinari.

 

No começo desta empreitada, esse elemento “externo” chegou na forma de desenho sobre foto embalada em caixa acrílica. Um experimento que lembra, de longe, algum encontro entre René Magritte e Marcel Duchamp. Ela colocou, sobre uma imagem celeste acondicionada na embalagem transparente, o contorno desenhado de uma janela aberta. Depois, em outro trabalho, a aposição do contorno de um par de pernas. Em outro ainda, o de uma casinha. Sua ação fundamental já era, assim, de ativação da cena fotográfica; não no sentido seqüencial do cinema, mas da multiplicação dos seus conteúdos, inclusive de seu aspecto físico. Neste espaço tudo cabe para os processos de movimento e de mudança.

 

Tempos depois, em 2005, Mariana compôs foto com ladrilhos coloridos, o que adicionou nova complexidade ao seu trabalho. De um lado, ladeou a foto com esse material de construção, objeto industrial pronto, marcando sua presença material, como uma coisa do lado de fora, pertencente ao espaço, digamos assim, real e vivo. De outro, provocou, com sentido fortemente retiniano, as relações entre foto e pintura, articulando a obra como um pintor o faria. Em uma das obras dessa série, a fotografia quase abstrata de uma casa creme com céu azul – no formato e na dimensão exata de um ladrilho – parece apenas fazer a cor para contrastar com três ladrilhos vermelhos. Utiliza-se, desta forma, a imagem fotografada, como uma colagem, como mais um tom para o trabalho “pictórico”, sem no entanto abandonar a lembrança daquilo que originou a coloração.

 

A experiência da pintura sem tintas e sem pincéis tendeu a se acentuar nos anos seguintes, principalmente com o acréscimo do acrílico colorido no lugar do ladrilho – ainda que Mariana tenha dedicado igual empenho, simultaneamente, a pesquisas de diferenciações de luz e cor com o uso exclusivo de material fotográfico. Como é o caso da obra com a roda gigante de Londres; ou do trabalho em que uma paisagem montanhosa de tons róseos esverdeados é ladeada por duas imagens de interiores com paredes rosa e quadrinhos vermelhos.

Todavia, a entrada do acrílico colorido e espelhante abriu uma nova e fecunda estrada para esta produção tão jovem e tão acurada. Até aqui, tinha-se, sobretudo, a multiplicação de visões de uma mesma paisagem ou de uma mesma situação, com a recusa implícita da unicidade. Tinha-se também a adição de uma matéria externa à foto, matérica como o ladrilho e a tinta – ou imaterial como o desenho -, a dar-lhe novo movimento e às vezes novas cores. Agora, o acrílico, além da sua própria cor, carrega para dentro do quadro, por ser reflexor como um vidro, a experiência vívida, movimentada, atual e simultânea – ainda que virtual – dos acontecimentos externos. Tenho diante de mim, na parede perto da janela, um pequeno trabalho, de 2006, em que a foto de impressão opaca de árvores secas, provavelmente em algum outono do hemisfério norte, é cortada horizontalmente, ficando um pedaço com 80% da imagem e outro com os restantes 20%. A imagem foi recomposta sobre um retângulo de acrílico amarelo, ficando uma faixa deste material entre as duas partes das árvores. Nessa faixa acrílica, reflete-se o movimento externo que vem da janela – silhuetas de prédio e pedaços do céu, cuja luz vai mudando ao longo do dia.

 

Em 2009, Mariana passou a intervir também com a mão de pintora, com tinta acrílica sobre as fotos. Já não se tratava, portanto, apenas de simular a pintura. Na “Série planares”, por exemplo, aplica formas geométricas monocromáticas sobre fotos de uma estranha paisagem, que às vezes lembra Guignard. Nas séries “Aérea” e “Biblioteca Azul” escolhe partes das fotos para aplicar a sua cor planar e marcante. Mais uma vez, a fotografia e o olhar são movimentados por algo presente e atual.

 

Uma experiência mais completa, em grande escala e em espaço público, seria realizada no verão deste ano em uma ruamovimentada de São Paulo. Com tudo aquilo que foi acumulando nos sete anos, Mariana utilizou um painel de vidro externo, na frente do Sesc Santana, com imagens de jogos na praia interrompidas por recortes de planos coloridos retangulares ou quadrados. Ali, foi o vidro que fez o papel de espelho, permitindo que o movimento dos carros, das pessoas e do céu, especialmente projetados nos planos,  entrassem naquele jogo. Como sempre, uma partida simples e bela, de alta complexidade, em que vencem a sensibilidade e a inteligência.