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Campo

13/08 2016 – 21/09 2016


Parte significativa da produção de Paloma Bosquê nos últimos cinco anos é marcada pela combinação entre materiais sólidos e maleáveis‭, ‬resultando em composições que‭, ‬embora fortemente amparadas por um grid‭, ‬incorporam superfícies e texturas moles‭, ‬translúcidas ou imperfeitas que promovem o desvio de uma vontade de pureza geométrica‭. ‬Mesmo nos trabalhos nos quais o aspecto construtivista se destaca‭, ‬há sempre algum dado que perturba o rigor absoluto‭. ‬Na série de relevos de parede intitulada Ritmo para 2‭ (‬2013‭), ‬por exemplo‭, ‬pares de molduras de tamanhos distintos são sobrepostas e entrelaçadas com feixes de fios metálicos dourados que simultaneamente amarram os dois objetos e criam planos tridimensionais que perpassam fundo e superfície‭, ‬entrecruzando-se em alguns momentos‭. ‬São amarrações engenhosas e meticulosamente executadas‭, ‬mas que subentendem uma estado de transitoriedade‭, ‬uma vez que o que garante a fixação das peças de madeira é apenas a tensão das linhas‭. ‬Em outros trabalhos‭, ‬o desvio se dá pela combinação de formas marcadamente geométricas e materiais intrinsecamente informes como a cera de abelha‭ (‬Língua‭, ‬2014‭), ‬a encáustica‭ (‬Repetições‭ [‬Os 12‭ ‬Defeitos‭], ‬2013‭) ‬ou a linha tecida à mão‭ (‬Trapinhos‭, ‬2015-16‭).‬

Em Campo‭, ‬sua segunda exposição individual na Mendes Wood DM‭, ‬Paloma Bosquê aprofunda sua pesquisa em torno das qualidades físicas da matéria e das possibilidades estruturais do objeto‭. ‬Nesse processo‭, ‬além de expandir seu repertório de materiais‭, ‬pela primeira vez produz trabalhos que prescindem completamente da sustentação na parede ou no teto‭. ‬Mais do que denotar apenas uma transição para o domínio daquilo que pode ser entendido mais tradicionalmente como escultura‭, ‬essas peças são o resultado do desdobramento de uma busca infatigável da artista por estabelecer relações complexas porém potencialmente instáveis entre materiais de‭ ‬naturezas distintas‭. ‬É que o ficar de pé‭ - ‬pré-requisito fundamental da escultura em seu sentido clássico‭ ‬‮–‬‭, ‬em coerência‭  ‬com a‭ ‬lógica que permeia suas construções anteriores‭, ‬não pode ser conquistado por meio‭  ‬de subterfúgios‭. ‬Interessa-lhe sobretudo aquilo que consegue manipular sozinha‭, ‬o que as limitações de seu próprio corpo lhe impõe‭. ‬Assim‭, ‬o fino equilíbrio das estruturas‭ ‬que constituem o esqueleto das peças autoportantes apresentadas aqui é obtido através‭  ‬relação entre o peso das tiras de lençol‭ ‬de chumbo que envolvem a base das hastes de latão‭, ‬que por sua vez são conectadas por meio de uma técnica de encaixes e amarrações que dispensa soldas ou parafusos‭.  ‬Há portanto uma fragilidade latente nessas construções‭, ‬na medida em que os arranjos que as sustentam podem aparentemente ser desfeitos a qualquer momento sem que seja necessário recorrer à força ou a instrumentos externos‭. ‬

Paloma Bosquê conta que a primeira delas que conseguiu erigir foi Jirau‭ (‬2016‭), ‬cuja forma lembra as estruturas homônimas constituídas por um estrado de varas sobre forquilhas cravadas no chão e utilizadas principalmente no norte do país para fins variados‭: ‬guardar louças ou panelas‭, ‬defumar carne‭, ‬secar frutas‭. ‬Chama-se jirau‭ (‬a palavra é de origem Tupi‭) ‬também a armação sobre a qual se constrói casas em áreas alagadas‭, ‬ou ainda‭, ‬qualquer armação de madeira em forma de estrado ou palanque‭. ‬O jirau de hastes de latão concebido por Bosquê é atravessado horizontalmente por um pedaço de feltro de lã de cor clara e quase translúcida que‭ ‬desenha uma grande curva entre suas duas extremidades‭, ‬contrastando diametralmente em densidade‭, ‬temperatura e textura com a armação ortogonal de metal‭. ‬Na parte superior‭, ‬sobre uma tela de finas tramas douradas‭, ‬repousam duas pequenas peças alongadas fundidas em bronze‭. ‬Assim‭, ‬quando o observamos à uma certa distância‭, ‬o que se sobressai é a geometria do desenho traçado pelas linhas retas das hastes e a curva da lã‭.  ‬Mas ao nos aproximarmos‭, ‬o que é visível é a sobreposição das peças de bronze sobre a tela que tem como fundo a cor amarelada e a textura da lã‭.  ‬Esse último ponto é‭, ‬sem dúvida algo que não deve ser subestimado‭, ‬já que ao mover-se para o campo da escultura‭, ‬no qual a posição do corpo do observador frente ao objeto se torna ainda mais crucial‭,‬‭ ‬Bosquê complexifica ainda mais as relações de negociação entre os diferentes materiais‭, ‬que é uma das operações mais fundamentais de seu trabalho‭.‬

Mas além das estruturas autoportantes de chão‭, ‬que permitem uma ocupação mais livre do interior do espaço expositivo‭, ‬a exposição inclui ainda peças de parede e esculturas em menor escala que são apresentadas sobre bases‭. ‬A recorrência do feltro bege ou cinza claro‭, ‬a tripa de boi e o papel de bananeira de um rosa pálido‭, ‬geralmente contrastados com o dourado do metal‭, ‬conferem a predominância de uma paleta próxima aos tons da pele‭, ‬uma associação que é reforçada pela superfície orgânica desses materiais‭.  ‬Campo‭, ‬Bosquê propõe uma ocupação do espaço que busca recriar em certa medida a experiência de convivência com as obras no ateliê‭, ‬lugar onde as obras normalmente convivem numa estado de proximidade e interferência‭. ‬A artista conta que durante o processo de pesquisa que antecedeu a exposição‭, ‬interessou-se pela idéia de Ma‭, ‬palavra japonesa que adquire sentidos múltiplos em contextos diversos‭, ‬mas que pode ser aproximadamente traduzida como a experiência do espaço que inclui elementos temporais e subjetivos‭. ‬As definições deste conceito‭, ‬embora inúmeras e às vezes divergentes‭, ‬deixam claro que não se refere ao espaço criado por elementos compositivos‭, ‬mas aquilo que acontece na imaginação de quem se relaciona com esses elementos‭. ‬Portanto‭, ‬o ma pode ser definido como um espaço da experiência cuja ênfase é no intervalo‭. ‬Mas o que interessa aqui‭, ‬mais do que uma idéia de fidelidade da‭ ‬artista ao conceito original‭, ‬é que ao conceber um display mais próximo da sua própria experiência dos trabalhos no ateliê ela busca quebrar o isolamento de trabalhos ou séries individuais e a determinação de um espaço mais definido de separação entre o público e a obra que caracterizam montagens mais tradicionais‭. ‬Ao fazê-lo‭, ‬amplia o campo de atuação dos trabalhos‭, ‬que passam a dialogar mais intimamente entre si‭, ‬ao mesmo tempo em que estabelece uma relação mais próxima entre o corpo do espectador e a obra‭. ‬

O trabalho de Paloma Bosquê é frequentemente lido em termos de sua filiação à uma produção associada ao Neoconcretismo‭, ‬movimento que refutou os paradigmas industriais do Concretismo paulista em prol da aproximação entre arte e vida‭. ‬Embora a comparação não seja desacertada‭, ‬dado o caráter geométrico-sensível que caracteriza grande parte de sua prática até o momento‭, ‬corre o risco‭ ‬de subestimar outros aspectos que talvez tenham um impacto mais significativo no desenvolvimento de sua obra‭. ‬A artista reitera‭ ‬constantemente a importância da prática diária no ateliê‭, ‬que lhe permite uma convivência intensa com os materiais‭, ‬bem como uma‭ ‬ética de trabalho fundamentada no fazer manual e circunscrita pelas limitações de seu próprio corpo‭. ‬Daí emana seu interesse pelas técnicas vernaculares‭, ‬na medida em que essas denotam um conhecimento adquirido através da experiência direta com o material‭, ‬seja no bordado‭, ‬no trançado ou na criação de estruturas inspiradas em técnicas construtivas populares‭. ‬Em última instância‭, ‬acredito que Bosquê concordaria com Eva Hesse quando esta‭, ‬comentando sobre sua obra‭, ‬declarou‭: ‬Não pergunte o que significa ou ao que se refere‭. ‬Não pergunte o que é o trabalho‭. ‬Pelo contrário‭, ‬veja o que faz o trabalho‭. ‬


– Kiki Mazzucchelli

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