Vistas da exposição
1 de 9
Texto

Futuro do Pretérito 

04/02 2012 – 25/02 2012


Em Futuro do Pretérito são reunidos trabalhos de Cristiano Lenhardt, Leticia Ramos, Luiz Roque e Michel Zózimo, artistas de uma mesma geração, nascidos e criados no Rio Grande do Sul, e que exploram em seus trabalhos as relações entre a ficção e a ciência, flertando muitas vezes com o gênero ficção científica. 

O abuso de uma estética ultrapassada na direção de arte dos filmes de Cristiano Lenhardt, feitos numa época em que os efeitos digitais são o suprassumo do cinema de entretenimento no mundo, não nos remete à ideia de uma produção de baixo orçamento ou ao fetichismo dos suportes analógicos, mas nos força a retomar a memória dos antigos filmes de ficção científica – o futuro pelas lentes do passado, aquilo que teria sido se a ficção tivesse previsto assertivamente. Cristiano parece querer forjar futuros, mas revela de forma quase irônica as ilusões presentes nesta utopia, escancarando suas estruturas ficcionais, que por sua vez estão associadas à certa estética de truques ultrapassados, e terminam por ignorar o presente e conectar o futuro diretamente ao passado.

Também brincando com a atemporalidade da narrativa, Luiz Roque nos apresenta filmes que poderiam ter sido resgatados tanto do passado, como do futuro. Os objetos aqui figurados – a fumaça, a torre, o dourado – pertencem a um certo imaginário futurista, enquanto a qualidade das imagens nos remete a um coalhar do filme pelo tempo, aos ruídos causados pelas câmeras antigas. Entretanto, a escolha pelo uso da película não se faz em oposição ao suporte digital, para resgatar os ares do passado, mas pela densidade deste suporte analógico, pela possibilidade de trabalhar a imagem como escultura. Luiz Roque esculpe as camadas da imagem exacerbando suas propriedades plásticas e se beneficia do já estabelecido “lugar da paisagem” para criar um canal de comunicação com o espectador. Retrata ora paisagens naturais com elementos artificiais, ora paisagens artificiais com elementos naturais, mas sempre descrevendo paisagens como panoramas para ilustrar os assuntos em discussão; como em Filme Dourado, onde o corpo é tratado como paisagem – a mão que explora aquele corpo estranho como se adentrasse uma paisagem desconhecida pela primeira vez. Aqui, como num filme neo-noir, o artista retoma uma estética de um futuro retrofit onde ciência e poesia parecem colidir.

Descaracterizando os territórios em tempo e eliminando a temporalidade dos espaços, Leticia Ramos convence seu público da fábula criada por ela mesma e os leva consigo para dentro de sua própria ficção, transportando-nos para outra dimensão e os convencendo das maravilhas e perigos daquela aventura – como a possibilidade de encontrar dinossauros num deserto vulcânico na Argentina, ou ainda submarinos naufragados em expedição de conquista ao Pólo Ártico. Numa brincadeira levada à sério, a artista cria ciência em torno de ficções inventadas por ela. Quando constrói seus próprios aparatos – feitos artesanalmente no ateliê-laboratório da artista e desenvolvidos exclusivamente para suas expedições – preparada para explorar sua própria ficção, Leticia propõe uma fábula cravada dentro da realidade. Desenvolve pesquisas, estabelece métodos, se utiliza de leis científicas que dão legitimidade e veracidade à narrativa proposta por ela mesma, como uma criança que inventa regras plausíveis para acreditar na própria brincadeira. Os trabalhos da artista apresentados nessa mostra funcionam como um dossiê de pesquisa, que revelariam os passos de uma expedição realizada por ela como que para provar uma tese científica e concluir, por exemplo, a existência de um universo fictício.

Já o artista Michel Zózimo faz ficção em torno da própria ciência. Ao se apropriar de cartilhas e manuais das décadas de cinqüenta e sessenta, Zózimo aproveita a dimensão poética tomada pelos experimentos científicos quando ultrapassados pelo tempo como base para criar novas realidades. Em experimentos científico-ficcionais, o artista se utiliza de elementos da linguagem científica, fazendo referência aos métodos que obedecem estritamente ao princípio da universalidade e de procedimentos que partem da observação da realidade. Mas ao se apropriar de materiais carregados da aura do poético – proporcionada pela passagem de tempo – o artista retoma as qualidades sensíveis do objeto tratado (descartadas pela ciência mais rigorosa) e, assim, termina por sugerir novas configurações de realidade, revelando a porção de poesia inerente à ciência. Se a fantasia subjetiva preparou os caminhos para a ciência, Zózimo se empenha em devolver o caráter lírico deste ramo do conhecimento à sua existência. Na poética do artista, a poesia é elemento indispensável e determinante na invenção da realidade. 


Cristiano Lenhardt, nascido em Itaara – RS, 1975, vive hoje em Recife – PE. Formação: Bacharelado em artes Plásticas – 2000, universidade federal de Santa Maria. Orientação artística Torreão em Porto Alegre, de 2001 a 2003. Prêmios e bolsas e residências: Residência artistica no Made in Mirrors Foundation em Guangzhou – China, 2011; Bolsa Ibere Camargo – Programas de Artistas Universidad Torcuato Di tella, em Buenos Aires, 2011; Bolsa Prêmio 26º salão de artes plásticas de Pernambuco, 2006; Prêmio Concurso Videoarte da fundação Joaquim Nabuco – Recife. Principais exposições coletivas: 2012 – Rumos Visuais Itaú Cultural, São Paulo; 2011 – Mythologies – cité Internationale des Arts, Paris; Ficciones – Encuentro Bienal de Fotografía y Nuevos Medios – Fundación Pablo Atchugarry, Uruguay; 17º Festival Internacional de arte Contemporânea SESC_Videobrasil, São Paulo; Intimate Bureaucracies: Art and the Mail, Art Exchange, University of Essex – Inglaterra; Ano Novo – Galeria Silvia Cintra+box 4 – Rio de Janeiro; 2010 – Mostra Constructing Views – New Museum – New York; Territorios Recombinantes, Inst. Sergio Motta, MAMAM do Pátio – Recife; 2009 – 7ª Bienal de Artes Visuais do Mercosul; 63º Salão Paranaense – Curitiba; Temporada de Projetos do Paço das Artes – São Paulo; SPA das artes, Recife; 2008 – Programa de Exposições do Centro Cultural São Paulo; Prêmio Projéteis da Arte contemporânea – FUNARTE-RIO; 2007 SPA das artes, Recife; 2006 – Fiat mostra Brasil – São Paulo; 2004 – Exposição Contemporão em Porto Alegre; SPA das artes, Recife. Exposições Individuais: Papel Sensível – Tijuana; Galeria Vermelho, São Paulo, 2011; Nenhuma luz – Galeria Amparo 60, Recife, 2010; Filmes de Studio – Torreão – Porto Alegre, 2009; Diamante – Galeria Marcantonio Vilaça Inst.Cult. Banco Real – Recife, 2008; Ajuste Manual – Festival de cinema e vídeo de Santa Maria, 2003. Projetos coletivos: Grupo Laranjas, 2002–2007; A Casa Como Convém, 2007–2012; Força Tarefa, 2006–2012. 

Leticia Ramos (Santo Antônio da Patrulha, 1976) cursou arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Cinema na Fundação Armando Álvares Penteado, FAAP. Seu foco de investigação artística é a criação de aparatos fotográficos próprios para a captação e reconstrução do movimento e sua apresentação em vídeo. Seu trabalho baseia-se nas pesquisas sobre a formação da imagem e as tecnologias de registro do movimento. Seus trabalhos já foram expostos em importantes mostras e galerias, como a Tate Modern em Londres, 16º Videobrasil em São Paulo, Laboratório de Arte Alameda, México. Em 2009 Foi selecionada pelo prêmio RUMOS de Artes visuais do Instituto Itaú Cultural realizando uma itinerância de exposições pelo Brasil entre elas no Museu de Arte Moderna em Salvador, Itaú Cultural, SP e Paço Imperial, Rio de Janeiro. Em 2009/2010 Realizou a exposição individual ERBF – estação radiobasefotográfica, dentro do programa de exposições do Centro Cultural São Paulo. Em 2010 ganhou o Premio Marc Ferrez – FUNARTE para criação fotográfica com o projeto BITACORA que culminou com a participação da artista na residência “The artic circle” a bordo de um veleiro no Pólo Norte. Também desenvolveu o projeto ESCAFANDRO na residência La Bande Vídeo – Quebéc – Canadá onde também realizou uma exibição individual. Recentemente a artista foi selecionada para o Programa de Fotografia do CCSP 2012/2013.

Luiz Roque (Cachoeira do Sul, 1979). Vive e trabalha em São Paulo. Trabalha com filme, vídeo, fotografia e projetos que envolvem luz neon. Seu trabalho tem sido mostrado individualmente em lugares como Paço das Artes (Temporada de Projetos, São Paulo, 2008) e Ateliê Subterrânea (Porto Alegre, 2009) e em coletivase mostras como Abre Alas 6 (A Gentil Carioca, Rio de Janeiro, 2010) e Video Links Brazil (Tate Modern, Londres, 2007). Seu vídeo Projeto Vermelho foi exibido na 12a. Biennnial de L’image en Mouvement (CIC, Genebra, 2oo7) e foi incluído na seleção LÚCIDA, um panorama sobre a videoarte latino americana veiculado na televisão argentina (canal (à) em 2007). Em 2010 participa da mostra inaugural da Fundação Vera Chaves Barcellos, Sussurros & Silêncios (Viamão RS) e de Constructions Views: experimental film & video from Brazil no New Museum (Nova York). Recentemente participou de Ano Novo na Galeria Silvia Cintra (Rio de Janeiro) e do 17o. VIDEOBRASIL no SESC Belenzinho em São Paulo e é um dos artistas selecionados para o programa Rumos Artes Visuais 2011-2013 do Instituto Itáu Cultural em São Paulo.

Michel Zózimo (Brasil, 1977). Vive e trabalha em Porto Alegre. É artista-pesquisador e professor. Em 2010 recebeu o Prêmio de Residência Artística em HANGAR-Barcelona do Programa de Exposições Centro Cultural de São Paulo. Em 2011, publicou o livro Extratégias Expansivas; Publicações de Artistas e seus Espaços Moventes, financiado pela FUNARTE. Em 2012 participará do Rumos Itaú Cultural e da Temporada de Projetos Paço das Artes. Sua pesquisa versa sobre as possibilidades poéticas das disciplinas científicas, através da transposição de conteúdos didáticos ou informativos de materiais impressos da segunda metade do século XX. Tem interesse pela ficção científica projetada em um tempo passado, onde o deslocamento de espaços constitui matéria potente.

Menu