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Meditação, Transe

27/08 2011 –  24/09 2011


A concentração para o esvaziamento da mente cria uma perspectiva de neutralidade histórica. Tal exercício de suspensão temporal deixa impressões: o aspecto transiente das obras que resulta em contundentes intenções empiricas e não formalistas. A exposição coletiva Meditação, Transe reúne trabalhos que lidam com uma certa ausência matérica em sua própria constituição, e que ao ultrapassarem os limites de sua própria ontologia, atingem terrenos onde estados alterados de percepção e memória de movimentos corporais aproximam-se ao transe.

É notório que um conhecimento supra-sensorial manifeste-se por entre as obras desta mostra, valendo-se pelo corpo e não pela técnica, de uma compreensão do artístico acerca da invisibilidade. Em Meditação, Transe, o conjunto associa evidências da auto-hipnose e possessão, que percebidas juntas frente a ruptura da norma (formalista ou historiográfica) e predicada nos sentidos (por vezes mais próxima da música e dança), coexistem como estéticas dispersas.


Na obra Reticências (2000) de Rivane Neuenschwander é o próprio processo ad-infinitum de perfuração de um biombo-livro que sintetiza um dos temas de interesse: tanto o suporte quanto o seu processo conformam a obra.

No vídeo de Mona Hatoum, Changing Parts (1984) é o antagonismo do corpo em relação à mente que configura o tônus deste trabalho. Uma silhueta corporal impulsionada à extrema condição opressiva, gera um nível de consciência delirante sobre a figura humana, afastando-a espasmodicamente do cerne da dor psíquica.

Já na obra de Sonia Gomes não há cisão entre arte e biografia, lateja ali uma tensão entre essas duas veias cambaleantes. Em Transformação 2 (2011), a matéria que tece a escultura de tecidos retorcidos é a própria força que é exercida sobre todas as coisas: a repetição e a insistência do tempo incidentes.

No trabalho instalativo de Deyson Gilbert, Economia do Transe (2011), o equilíbrio por um fio é também presente e chega a ruir: a cada 24 horas um novo bloco de gelo reinicia um ciclo dominó no qual faz desmoronar a própria estrutura impermanente que o sustenta (uma cadeira e uma bandeira).

Paulo Nazareth se junta ao grupo em exposição com 2 fotografias – sem título (2011) que elucidam a imagética do transe, quando ao levantar um animal no colo, remete a ritos de sacrifício.

Ryan McNamara e o seu vídeo The Latest in Blood and Guts (2009) ressalta a vertente dos trabalhos que permeiam a curadoria com imagens de auto-indução a hipnose.

Hudinilson Jr. participa com um de seus inúmeros Caderno de Referência (1979–2011), em que a combinação de centenas de imagens que se repetem incessantemente nos induz a um olhar que se pronuncia excitadamente em transe pós-meditativo.

Adriano Costa com a sua peça, As you like it (2010–2011), feita a partir de pedaços têxteis encontrados a esmo, e montadas modularmente a cada necessidade expositiva onde o display não se repete jamais, convida o visitante a refletir sobre a durabilidade e o valor de sua prática através da rememoração do labor do devoto monástico. 

The Pataphysical Man (2005), vídeo exibido do artista australiano Shaun Gladwell, acompanha em câmera lenta um giro contemplativo de breakdance em loop, realizado de cabeça para baixo pelo próprio artista.

Claudia Andujar com uma fotografia dos anos 1970 onde se vê tal qual uma miragem de um índio yanomami deitado em uma rede em ambiente enfumaçado, sustentado de tal modo pueril que mais se assemelha a uma imagem fantástica de levitação. 

Egum-Itaparica (Bahía, Brésil n° 24638) (1946-1978) fotografia de Pierre Verger, revela aos olhos do espectador uma imagem ritualística do culto iorubá aos seus antepassados.

Maya Deren, com o filme transferido para vídeo Meditation on Violence (1948) nos seduz em imagem em movimento com seus shootings do universo das artes marciais.

Pode-se fazer referência a Nightfall (1971) de Bas Jan Ader, filme transferido para vídeo em que acompanhamos com o olhar a imagem em autoretrato de um homem que tenta se manter ereto sobre os seus próprios pés em constante movimento pendular de transe meditativo.

Kim Jones com uma fotografia da série Mudman (década 1970) em que capturava as suas andanças errantes performáticas ao revestir o entorno de seu corpo com gravetos e galhos encontrados ao longo do caminho, constrói assim uma primitiva estrutura que faz recordar uma armadura de cavaleiro medieval.  

O trabalho de Terence Koh, i sit at the back of a chinese rickshaw and feel nothing above me but a heaven then a white rose just like you (2008), concebido originalmente para a exposição Captain Buddha (2008) menciona a imagética do Zen Budismo e a iconografia cristã. Objetos banais são folheados a ouro e pintados de branco, sendo impregnados com fluidos corporais.

Em Turbo Burbo (2009), Luis Gispert aplica uma lógica de justaposição de duas estéticas musicais díspares, rap e bossa-nova, e por não haver intercessão entre tais sonoridades, o que resta é um “white noise” hipnótico que nos traz à locus de transe. Tal efeito disjuntor nos remete a John Cage. O real mimetizado encarna o irreal ao regorgitar uma canção mixada com uma voz masculina que lhe é imposta. A estranheza dessa justaposição nos faz crer em possessão, suscitando repulsa, irritação e nervosismo. 

Com Jen Denike, em What Do You Believe In (2011), o processo meditativo da artista no pico de uma montanha no Arizona nos incita a sair do transe: o lugar de onde nos posicionamos é dirigido pelo que acreditamos.

E por fim, John Mawurndjul, com seu trabalho minimalista, traz uma pintura ocre que evoca tradições sagradas de “story telling”, baseada em uma espiritualidade que emana da terra. Pinceladas concisas e repetitivas saturam em casca de árvore um estilo visual simples, que representa as visões cosmológicas do artista.

Os trabalhos em exibição irrompem em grupo como aparições, desvios do real, afirmando a preeminência existencial da arte em essência. Algumas das obras surgem tal qual pudessem ser conduzidas por indícios de superação momentânea: há por ora o esquecimento do ser, por outras, a realização cabal do corpo e seu apego, as turbulências do espírito e os excessos perceptivos, nos quais essas instâncias biográficas se mesclam com as incertezas do visitante. 

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