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leticia ramos em bruxelas
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18/04 – 26/05 2018


Letícia Ramos é uma fotógrafa-cientista, uma viajante que atravessa os séculos revirando as diversas aventuras de invenção das formas de representar o mundo. Seus trabalhos costumam abranger um longo processo de desenvolvimento de aparelhos e técnicas para alcançar determinado objetivo, e suas imagens fotográficas são a expressão plástica dessa busca, como mapas que registram um percurso. Não à toa, muitas de suas fotografias parecem abstratas ou cifradas, desafiando a todos com seu poder de síntese.

Este trabalho faz referência aos desdobramentos da Revolução Industrial, período em que a fotografia era usada para embasar teses científicas, aprimorar a “máquina do mundo” e ampliar a capacidade produtiva. Sopravam os tempos de Frederick Winslow Taylor (1856–1915), o engenheiro americano que se celebrizou por estudar o movimento dos operários ingleses para que pudessem ser aprimorados e repetidos.
O aperfeiçoamento das máquinas era o aperfeiçoamento dos homens.

Em 1916, no melhor exemplo de taylorismo, o casal Frank e Lillian Gilbreth publicou o artigo “O efeito dos estudos de movimento nos trabalhadores”. Os Gilbreth promoviam o uso da fotografia e da animação para estudar os ciclos de trabalho e descobrir como reduzi-los a sequências mais curtas e eficientes de gestos, diminuindo a fadiga. “Os estudos de movimento deixam qualquer atividade interessante”, propagandeavam. Os trabalhadores que se submetessem aos estudos seriam “mais eficientes, mais bem-sucedidos e mais felizes”.

Para atingir o objetivo, os Gilbreth combinavam o estudo de micromovimentos, as tabelas de movimentos simultâneos e os cronociclográficos, exibidos em fotografias que representavam o movimento dos trabalhadores através de um rastro de luz. Para fazê-los, era preciso expor a chapa fotográfica pelo período de duração da atividade e amarrar ao corpo dos trabalhadores pequenas lâmpadas, cuja luz registrava o deslocamento dos membros.

Os cronociclográficos eram um desdobramento das pesquisas pioneiras de Eadweard Muybridge (1830–1904) e Étienne-Jules Marey (1830-1904). Semelhantes a piruetas escultóricas de luz, os cronociclográficos eram curiosamente afinados com a produção dos artistas futuristas, que também promoviam a utopia do homem-máquina, sem prever que o positivismo científico pudesse usar a fotografia para aumentar a exploração econômica.

Em A resistência do corpo, Letícia simula um ambiente controlado para testar as reações dos corpos diante de atividades ligadas às manifestações de ruas. Com câmeras, bonecos e maquetes, a artista emula o repertório visual dos estudos científicos em fotografias que exibem o arremesso de objetos, a comunicação por celulares nas redes sociais e o impacto de jatos d’água.


À maneira dos Gilbreth, Letícia realizou inúmeros testes. Em algumas imagens, uma cabeça, um busto e uma mão presos por traquitanas recebem jatos que se estilhaçam na contraluz como uma Via Láctea. Em outra imagem, um boneco espatifa-se no chão, como se fosse uma pessoa viva.

Os corpos fragmentados, os instrumentos mecânicos, o fundo escuro e pontilhado criam uma atmosfera calculada e misteriosa, como se estivéssemos diante de uma experiência robótica ou espacial. O uso da fotografia dá veracidade ao trabalho e faz com que mesmo uma situação improvável ganhe ares de documento.

Pequenas telas reproduzem em pontos o movimento de um corpo caindo. Por que cai? Aos poucos, o trabalho fica abstrato. A imagem do envio de uma mensagem pelo celular, digitada por uma mão vestida com luva de bolinhas e fotografada com luz estroboscópica, assemelha-se a um conjunto de átomos vibrando no espaço. Outro envio de mensagem, registrado com uma luva salpicada de luzes e dividido em imagens azuis, parece mostrar uma descarga elétrica, a mesma que é reproduzida numa pequena polaroide. A transparência azul das imagens revela o uso de chapas radiográficas no lugar dos filmes – do mesmo tipo das que são usadas pela medicina para investigar os mistérios do corpo. Outra chapa mostra uma maquete e uma mão solitária, como se lançasse um estranho e surreal pedido de ajuda.

As imagens de Letícia não esclarecem nada. É possível que o arremessador de objeto represente um manifestante. O remetente da mensagem de celular pode ser qualquer um. O lançamento de jatos d’água seria prerrogativa da polícia.

Quanto um corpo é capaz de resistir nas manifestações de rua? A quem interessa representar visualmente esses impactos? Bonecos e modelos de teste são comumente usados na indústria para evitar danos físicos em pessoas reais, principalmente em situações de risco extremo. Os vídeos produzidos pelas montadoras de veículos para estudar o impacto dos corpos em alta velocidade são bem conhecidos. Ainda que a circulação dessas imagens possa ampliar nossa sensação de segurança, sua produção também pode agir em sentido contrário, ao suavizar nossa percepção dos riscos a que estamos submetidos ou ao nos amedrontar por exibir de forma indireta a repressão física a que estamos sujeitos.

Se víssemos as fotos de pessoas vitimadas pelos impactos automobilísticos, talvez não sustentássemos a indústria da alta velocidade. Imagens de armamentos e grupos policiais, muitas vezes veiculadas pela administração pública para transmitir a sensação de segurança, também nos intimidam. Ao aumento do poder de fogo e das armas de guerra, corresponde uma representação cada vez mais abstrata da violência. Rareiam os fotógrafos do front, voam drones e satélites.

A representação indireta também desumaniza, é o que parece dizer a artista neste trabalho sombrio e perturbador, que transforma a fotografia em uma natureza-morta, ou quase.


- Thyago Nogueira, coordenador de Fotografia Contemporânea do Instituto Moreira Salles, Brasil, e editor da revista ZUM.

Projeto desenvolvido com o apoio do Instituto Moreira Salles. Curadoria de Thyago Nogueira.
Tratamento de imagens: Equipe de fotografia do IMS e Letícia Ramos.

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