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Sínteses entre idéias contraditórias e a pluralidade do objeto como imagem I

20/02 2016 – 26/03 2016


Uma atmosfera comum a painéis compostos coletivamente – como muros de rua, construções vernaculares e banheiros públicos – permeia todo o trabalho de Paulo Nimer Pjota. Ao conduzir um estudo sobre iconografia popular que deliberadamente aparenta ser operado por múltiplas mãos, o artista produz na tensão entre aleatoriedade e uma meticulosa prática compositiva. Os resultados são cenários intensos que emulam uma colagem de muitas camadas.   

Inclinado a trabalhar sobre grandes superfícies, Pjota se vale de tela, sacos e imensas placas de metais como suporte. Em sua maioria, esses materiais são encontrados em ferros-velhos e depósitos de dejetos após um processo de procura, negociação, apropriação e deslocamento. Naturalmente, as peças já trazem marcas gráficas – e espirituais – de seu uso anterior, influenciando diretamente o que poderá vir posteriormente. Nesses espaços, surgem narrativas visuais que combinam história da arte com a complexidade do imaginário social contemporâneo. Ao passo que sublinham os clichês de pinturas figurativas e de paisagem, mistura-os a elementos banais, de fácil encontro. 

Como evidenciam as obras reunidas nesta exposição sob o título de Síntese entre ideias contraditórias e a pluralidade do objeto como imagem, tratam-se de emaranhados de referências e pensamentos que atravessam uma série de campos de pesquisa, estudo e experiência. Conduzidas por movimentos que vibram em consternação, ironia, contemplação e contestação, criam anacronias para se inclinar sobre o manejo de ícones e índices e seus papéis nas relações de poder que vêm se arrastando pela história. Presenciamos, então, a justaposição de adesivos com natureza-morta; vasos da Grécia Antiga com super-heróis; esculturas modernistas com máscaras africanas; artefatos arqueológicos com latas de refrigerante.  

Desse amontoado turbulento levantam-se contos. Impregnados com metáforas, analogias e sugestões, absorvem e reformulam o mundo como uma constelação de corpos suspensos no vazio. Se superficialmente há alguma desorientação, cada gesto aponta uma alegoria precisa e complexas conexões. No entanto, ao invés do claro e linear, encerram-se situações caóticas; ao invés da amarra a um único e fluido entendimento, circulam-se inúmeras alternativas de contextualização. Com efeito, torna-se possível reconfigurar nossa sensibilidade com o que de mais pueril nos cerca. 

Dois dos principais interesses do artista, o conflito inerente às áreas periféricas de qualquer contexto urbano e as percepções compartilhadas em um planeta globalizado, aqui são chacoalhados a todo tempo. Atraído pelos processos históricos que envolvem esses assuntos, Pjota se aprofunda na linguagem de guetos e culturas de massa, saindo com um repertório extenso, que mais tarde é instrumentalizado para marcar sensações de violência e tumulto. Sua preocupação é sobretudo com a própria formação cultural desses lugares ordinários, no que busca dialogar com traumas e catarses públicas de maneira livre e sem julgamento de valor. Neste ponto, se alta e baixa cultura, arte e vulgaridade, cânones e gírias se apresentam lado a lado, não há importância nuclear no fluxo narrativo: apenas vozes diversas falando num ruído embolado.   

Consciente dos mecanismos e contradições da chamada Era Digital, em que incontáveis imagens são geradas a cada segundo enquanto agravam-se desigualdades, interpela a forma como formulamos informação e distribuímos nossos afetos. Em sua cosmologia, a relação estrutural entre partes e o todo não é mais apoiada em uma divisão de classes. E na medida que suas fábulas globais são inundadas por fenômenos insignificantes e fibras do tecido marginalizado pelos fundamentos representativos tradicionais, indicam também novas possibilidades de interação social. 

Paulo Nimer Pjota (São José do Rio Preto, 1988) vive e trabalha em São Paulo. Suas exposições individuais incluem, Sistema Relacional, Paço das Artes São Paulo, São Paulo (2013), Mendes Wood DM, São Paulo (2012), 1º Mostra do programa de exposições Centro Cultural São Paulo, São Paulo (2012). Suas exposições coletivas incluem The World is Made of Stories, Astrup Fearnley Museet, Oslo (2015/2016); Cidade Inquieta, Sesc-Rio Preto, São José Rio Preto, São Paulo, (2015); Imagine Brazil, DHC/Art Foundation for Contemporary Art, Montreal, (2015/2016); 19º Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil - Panoramas do Sul, Sesc Pompéia, São Paulo, (2015); Here There, Here There, QM Gallery Al Riwaq, Doha (2015); Imagine Brazil, Astrup Feranley Museet, Oslo (2013); Entre-temps... Brusquement, et ensuite, 12e Biennale de Lyon, Lyon (2013), entre outras. Sua obra integra as coleções permantes da Rubbel Family Collection, Miami Fundação Pinault, Veneza, Domus Collection, Hong Kong, MAC-Lyon, Lyon, France, Astrup Fearnley Museum of Modern Art, Oslo, Norway, Centro Cultural São Paulo, Lodoveans Collection, London, UK, Sesc_Videobrasil, Sao Paulo, Pinacoteca de São José do Rio Preto e Piracicaba.               
 

– Germano Dushá

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