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VOSTOK – Screening #1

09/08 2014 – 27/08 2014


O livro I Ching, conhecido como o Livro das Mutações, obra oriental milenar, serviu como fonte de consultas e oráculo, sugerindo ações estratégicas que diferentes regimes ditatoriais e governos militares seguiram, subvertendo a sua real intenção. Quando a sua tradução encontrou a língua inglesa, no iníciodo século XX, rapidamente tal publicação tornou-se uma referência para os capitalistas norte-americanos como também para os camaradas orientais. Do mesmo modo, ficções ou teorias pseudo-científicas tornaram-se uma fonte inesgotável para o radicalismo brutal de alguns movimentos extremistas. Para o regime nazista, por exemplo, os escritos de Karl Neupert foram extremamente importantes na fundação do movimento Hohlwelttheorie, a Teoria da Terra Oca. Sabe-se que alguns membros do alto escalão dopartido nazista eram adeptos da Thule Gesellschaft, uma espécie de ordem neo-templária mesclada compráticas ocultistas e ciências mágico-herméticas, fundada pelo alemão Rudolf von Sebottendorff. Essetipo de literatura que mistura ficção com ciência remonta ao século XVII, mais precisamente aos estudos de Edmund Halley, o qual afirmava que a Terra era oca, contendo em seu interior outras três esferas. No interior dessas esferas haveria novas formas de vida que desconheceriam a existência das entidades das esferas maiores. Caberia aos seres mais externos, nesse caso, os humanos, cavar buracos para acessá-los. Um século mais tarde, o matemático Euler desenvolveu uma outra teoria, afirmando que não existiam esferas múltiplas no interior da Terra, mas sim apenas uma única esfera oca, com formas devida superiores habitando em seu interior. Essas duas teorias serviram de estrutura para os estudos que fundamentaram o livro механика скрытой вселенной, Mecânica do Universo Oculto, do cientista russo Ivan Korolenko.

Não por acaso, um exemplar desse livro foi encontrado em uma cápsula do tempo que os soviéticos implantaram no oceano através de um batiscafo russo, no século XX, a qual somente fora encontrada em 2050. Muito provavelmente, essa publicação também serviu para inspirar as expedições de um microsubmarino soviético, o qual foi o único submersível capaz de alcançar a profundidade que ultrapassava 100.000 pés.

Em uma de suas missões, o submarino foi enviado para a Antártica, como o objetivo de explorar um lago de águas turvas, congelado por milhares de anos. As constantes alterações climáticas e a elevação da temperatura que banha o globo terrestre fizeram com que o de gelo revelasse o lago que os camaradas chamaram de VOSTOK. Nesse lugar, a vida seria diferente, pois os cientistas soviéticos acreditavam que tal lago conservaria um mundo pré-histórico, abrigando formas de existência nunca antes vistas.

O que vemos no filme VOSTOK, de Letícia Ramos, é um pouco dessa história: um elemento de uma complexa rede de provas e documentos que atestam a existência de um lugar que ainda não conhecemos. O rés de águas pré-históricas é, assim, capturado pelo submarino que a artista construiu, remetendo às explorações soviéticas. Manipulando as ferramentas da imagem, Letícia consegue extrair do infra-mince o mais sensível do notável. E aqui, olhando para as referências que a fotografia nos deixou, lembro de poucos casos semelhantes. São exemplares as experiências paranormais do norte americano Ted Serios, com a máquina que fotografava o pensamento, os estudos dos russos Semyon e Valentina Kirlian, os quais criaram uma máquina para registrar a energia que circunda o nosso corpo, o aparato construído pelo alemão Augusto Mayer, uma máquina capaz de captar as esferas de energia que nossas mãos emanam, o melancólico Optograma do Dr. Vernois, o qual conseguia registrar a última imagem vista na retina de mortos e, finalmente, o equipamento improvável inventado pelo francês Hippolyte Baraduc: uma enorme máquina sem lente capaz de fotografar Deus.

É incerto que essas máquinas realmente tenham existido, mas as suas imagens nos mostram que a fé não é apenas um sistema de crença baseado no improvável. Ela vai um pouco mais além, onde a ciência encontra o truque e a magia enfrenta o cinema. Há nesses campos, linhas invisíveis que os afastam, do mesmo modo que os aproximam. Se exigirmos provas das teorias e dos postulados científicos, será no registro documental e nas experiências práticas que encontraremos a ilustração exemplar dessas metaficções.

E para aqueles que duvidam do tratado da Terra Oca, basta ir à Academy of Natural Sciences da Filadélfia e encontrar lá a maquete desse mundo, projetada, no século XIX, por J. Cleves Symmes. Ou, estando mais próximo, também observar o Aquário construído por Letícia Ramos. Esses dois constructos são outras formas de exemplificar teorias que não necessitam de comprovação, tais como o cinema, a literatura e, até mesmo, a história. Assim, não restará dúvidas a respeito de experimentos que inventam o mundo dentro do próprio mundo, seja ele cheio de ar ou tomado por água.

Leticia Ramos nasceu em 1976, Santo Antônio da Patrulha, Brasil. Vive e trabalha em São Paulo, Brasil.Vencedora do prêmio BES Photo 2014, exposições individuias de Leticia Ramos incluem: VOSTOK – Um prólogo, Pivô, São Paulo, 2013; A invenção da roda, Museu do Trabalho, Porto Alegre, 2013; Bitácora, Mendes Wood DM, São Paulo, 2012; Escafandro, La Bande Video, Quebéc, 2011 e ERBF – Estação Radiobase Fotográfica, Centro Cultural São Paulo, São Paulo, 2009/2010. Exposições coletivas incluem Museu Coleção Berardo, Lisboa, 2014; 18º Festival de Arte Contemporânea SescVideobrasil – Panoramas do Sul, Sesc Pompéia, São Paulo, 2013; Expo Projeção 1973–2013, SescPinheiros, São Paulo, 2013; Se o clima for favorável 9ª Bienal do Mercosul, Porto Alegre, Brasil, 2013; Programa de Fotografia, Centro Cultural São Paulo, São Paulo, Brasil, 2012; Trilhas do Desejo, Rumos Artes Visuais, Itaú Cultural, São Paulo, Brasil, 2009.

Michel Zózimo nasceu em 1976, em Santa Maria, Brasil. Artista e Professor de Artes Visuais, Zózimo vive e trabalha em Porto Alegre.


– Michel Zózimo

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